Uma condição mais sutil, mas não menos real
O autismo nível 1 — conhecido também como Transtorno do Espectro Autista (TEA) leve — muitas vezes passa despercebido durante a infância. Pessoas com esse perfil costumam apresentar boa capacidade intelectual e desenvolver estratégias de compensação que mascaram suas dificuldades sociais e sensoriais. Na escola, podem ser vistas como “tímidas”, “estranhas” ou “perfeccionistas”, mas raramente alguém suspeita de autismo.
O problema é que essas estratégias cobram um preço alto. A exigência constante de se adaptar a um mundo neurotípico gera ansiedade, exaustão e sensação crônica de inadequação. Somente na vida adulta — muitas vezes após episódios de burnout, esgotamento emocional ou dificuldades em relacionamentos — é que a pessoa busca ajuda e finalmente encontra a explicação que faltava: o diagnóstico de TEA.
A invisibilidade de quem “funciona bem demais”
Durante décadas, o estereótipo do autismo esteve muito associado a quadros severos, em que há atraso de fala ou dificuldades marcantes de aprendizado. Essa visão antiga deixou fora do radar toda uma população de autistas com funcionamento considerado “alto”, mas que ainda assim enfrenta desafios significativos de comunicação social, empatia e regulação emocional.
As mulheres estão entre as mais afetadas por essa invisibilidade. Estudos indicam que muitas meninas aprendem, desde cedo, a imitar expressões e comportamentos neurotípicos — um fenômeno chamado camuflagem social. Isso retarda o diagnóstico, pois elas aparentam “normalidade” em contextos sociais superficiais, embora internamente sintam-se confusas ou esgotadas.
A falta de preparo dos profissionais
Outro motivo crítico para o diagnóstico tardio é a formação limitada de profissionais da saúde e educação no reconhecimento do TEA em adultos. A maioria foi treinada a identificar sinais na infância e, em muitos casos, apenas nos padrões mais clássicos de autismo. Assim, quando um adulto chega ao consultório falando de dificuldades com interação social, sobrecarga sensorial ou exaustão após interações, o autismo raramente é cogitado — e os sintomas acabam classificados como ansiedade, depressão ou transtornos da personalidade.
Nos últimos anos, contudo, cresce o número de psiquiatras e neuropsicólogos especializados em avaliação de TEA em adultos, o que tem impulsionado a busca por um diagnóstico mais preciso e humano.
Um reencontro com a própria história
Receber o diagnóstico de autismo na vida adulta é, para muitos, um divisor de águas. Ele não muda quem a pessoa é, mas oferece um novo sentido para experiências passadas — fracassos escolares, incompreensões em relacionamentos, dificuldades de adaptação a mudanças. Com o diagnóstico vem a possibilidade de autoconhecimento, aceitação e, muitas vezes, maior bem-estar.
Ao entender-se dentro do espectro, o adulto autista pode buscar apoio adequado, aprender estratégias de autorregulação emocional e, principalmente, aliviar a culpa de “não conseguir ser como os outros”. Trata-se de uma jornada de reconciliação com a própria identidade neurodivergente.
Caminhos para o futuro
O aumento dos diagnósticos após os 30 anos reflete tanto a ampliação do conhecimento sobre o espectro quanto a coragem de adultos que questionam seus padrões de funcionamento. Ainda há desafios: profissionais precisam de mais capacitação, e a sociedade deve abandonar estereótipos que associam o autismo apenas ao sofrimento intenso ou à deficiência intelectual.
Quanto mais acessíveis forem as informações sobre o TEA nível 1, mais pessoas poderão compreender que o autismo não se “descobre” — ele sempre esteve lá, à espera de um olhar mais atento e empático.













