O cinema frequentemente lança mão de representações de transtornos psicológicos e comportamentais como recurso narrativo. O filme espanhol Toc-Toc (2017), dirigido por Vicente Villanueva e baseado na peça homônima de Laurent Baffie, é um exemplo marcante dessa abordagem. Com humor e leveza, a obra coloca em cena personagens com Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) que, ao se encontrarem na sala de espera de um psiquiatra, veem suas peculiaridades expostas em diálogos, rituais e interações. A análise do filme sob a perspectiva neuropsicológica permite compreender tanto acertos quanto simplificações na forma como o TOC é retratado.
O TOC na clínica e na neuropsicologia
O Transtorno Obsessivo-Compulsivo é caracterizado pela presença de obsessões — pensamentos intrusivos, persistentes e indesejados — e compulsões, que são comportamentos ou rituais realizados para reduzir a ansiedade gerada por esses pensamentos. Do ponto de vista neuropsicológico, o TOC envolve alterações em circuitos cortico-estriatais, particularmente no giro do cíngulo, no córtex orbitofrontal e nos núcleos da base, áreas relacionadas ao controle inibitório, planejamento e monitoramento de erros. Esses mecanismos explicam a dificuldade do indivíduo em suprimir pensamentos repetitivos e a necessidade de recorrer a rituais para recuperar uma sensação de alívio temporário.
Personagens como representações de sintomas
O filme apresenta personagens que simbolizam diferentes manifestações clínicas do TOC. Há quem sofra com obsessões ligadas à contaminação, quem viva com compulsões de simetria e ordem, quem conte incessantemente ou repita frases. Essa diversidade tem uma função pedagógica: ilustrar a heterogeneidade do transtorno. Contudo, vale destacar que, na prática clínica, esses sintomas raramente aparecem de forma tão isolada ou caricatural. A maioria dos pacientes apresenta combinações complexas, com graus variados de prejuízo funcional.
O humor como estratégia narrativa
A escolha do humor para retratar o TOC gera uma ambivalência. Por um lado, o riso facilita o acesso a um tema geralmente envolto em sofrimento e estigma, tornando-o mais visível para o grande público. Por outro, corre-se o risco de minimizar a gravidade da condição, reforçando estereótipos de que o TOC se resume a “manias engraçadas”. Do ponto de vista neuropsicológico, o humor pode ser um recurso de enfrentamento, mas não substitui a compreensão técnica de que se trata de um transtorno com impacto significativo na qualidade de vida, exigindo avaliação clínica, acompanhamento psicológico e, em muitos casos, intervenção medicamentosa.
Impacto social e cultural da obra
Apesar das simplificações, Toc-Toc cumpre uma função relevante ao trazer o TOC para o debate público. Muitos espectadores, ao se reconhecerem em algumas situações retratadas, podem buscar esclarecimento e até diagnóstico. Em contrapartida, há o risco de que pessoas passem a banalizar expressões como “sou toc” para descrever pequenas preferências por ordem ou limpeza, o que distorce a seriedade clínica do transtorno.
Considerações finais
Enquanto neuropsicólogo, é possível afirmar que Toc-Toc (2017) deve ser visto como uma obra de entretenimento com potencial educativo, mas não como retrato fiel da realidade clínica. O filme abre espaço para reflexão sobre a diversidade de manifestações do TOC e a importância de compreender os mecanismos cognitivos e emocionais envolvidos. Cabe aos profissionais de saúde mental aproveitar esse tipo de produto cultural como oportunidade de psicoeducação, esclarecendo ao público que o TOC não se reduz a “manias engraçadas”, mas a um transtorno complexo que exige cuidado, empatia e intervenção adequada.











